Confeitaria e mesa posta: o que foi destaque na Celebra Show 2026

Há um movimento silencioso acontecendo nas casas brasileiras: a mesa deixou de ser um lugar onde se come e virou um lugar onde se celebra. Um café da manhã de domingo ganha jogo americano. Um bolo de aniversário vira escultura. E o que era protocolo de grandes eventos passou a fazer parte da rotina.
Esse foi, talvez, o fio mais evidente da Celebra Show 2026. Dois segmentos que costumavam ocupar cantos distintos da feira — confeitaria e mesa posta — apareceram unidos pela mesma lógica: a de que servir virou experiência.
A confeitaria assume o protagonismo

Não é exagero dizer que a confeitaria roubou a cena. Inserida no setor de panificação que, segundo a Abip (Associação Brasileira da Indústria de Panificação e Confeitaria), movimenta mais de R$ 160 bilhões ao ano no Brasil e representa quase 1,3% do PIB nacional, ela chegou à feira com espaço próprio e ambição de vitrine. Para a ABCasa, a atividade deixou de ser complemento e passou a ser protagonista no mercado de celebrações — algo que se reflete diretamente no espaço que ocupa hoje dentro do evento.
O epicentro dessa transformação foi o Confeitando, um dos cinco espaços do Celebra Trends, com curadoria de Vanessa Marraschi, que tem 30 anos de experiência no setor. Ali, uma exposição de bolos artísticos sob o tema "Brasil Sensorial – Raiz, Arte e Luxo Nacional" reuniu criações em quatro categorias: Vintage Cake, Casamento, Contemporâneo e Infantil.
O próprio tema da exposição já anuncia a tendência que atravessou o segmento: a brasilidade. As propostas apresentadas destacaram referências culturais, cores, ingredientes e estéticas nacionais. "A ideia é mostrar que o Brasil tem identidade própria, sem depender exclusivamente de tendências internacionais. Existe uma valorização maior do que é nosso, com uma abordagem mais afetiva", explica a curadora. Junto a isso, veio o retorno de elementos emocionais e personalizados: bolos vintage com acabamento em bico, festas com estética retrô e decorações mais intimistas — um movimento que dialoga com a estética dos anos 80 e o charme retrô em alta.
Bolos que valem mais de R$ 10 mil
A dimensão comercial disso é concreta. Com a valorização da decoração artesanal, empreendedores de todos os portes podem alavancar o faturamento com criações que chegam a custar mais de R$ 10 mil. Pedro Campos, especialista em cake design e jurado da premiação, estima que os bolos da competição poderiam valer, em média, R$ 12 mil se fossem comercializados.
O que justifica esse valor é a técnica. Na categoria Vintage Cake, a estética do século XIX domina, com designs que remetem a castelos reais. Em Casamento, bolos de até seis andares combinam flores e acabamentos feitos à mão. No Contemporâneo, o maximalismo aparece em aplicações de papel de arroz fitado e adereços de até 20 centímetros. E no Infantil, a afetividade vira diferencial competitivo, com cores vibrantes e a reprodução de brinquedos dos anos noventa.
A mesa posta entra no cotidiano

Do outro lado do mesmo movimento está a mesa posta, em plena expansão. Ela deixou de ser recurso reservado a grandes celebrações para integrar refeições do dia a dia — e o mercado se organizou para atender essa demanda em toda a faixa de preço.
Na ponta acessível, a Fetély estreou na feira levando descartáveis para o universo da mesa posta, com itens em papéis de alta gramatura, entre 350 e 600 gramas, que oferecem resistência e elegância. No extremo oposto, a Cerâmica Luiz Salvador investiu no alto padrão, com jogos pintados à mão e detalhes em ouro 18 quilates aplicados em pratos, sousplats, tigelas, castiçais, talheres e taças.
Nas tendências estéticas, os tons claros seguem dominando as composições, acompanhados de detalhes delicados. Os itens com babados e os laços em cores variadas figuram entre as maiores apostas da temporada, ao lado das estampas florais — e, entre as novidades, as estampas com frutas tropicais em tons solares. Vale lembrar que a mesa também entra em cena no fim do ano, quando as tendências de Natal 2026 migram das árvores para os itens de servir.
O que isso significa para o negócio
Analisando o que esteve na feira, fica claro que confeitaria e mesa posta se tornaram categorias de valor agregado e não mais itens de conveniência. É um movimento que acompanha o crescimento do mercado de celebrações, que vem transformando emoção em negócios bilionários.
"Ao combinar praticidade, personalização e apelo estético, o segmento amplia seu alcance e passa a dialogar tanto com consumidores que buscam soluções acessíveis para o dia a dia quanto com aqueles que investem em experiências mais sofisticadas para receber convidados", avalia Daniel Galante, diretor executivo da ABCasa.
Na prática, são duas frentes de negócio simultâneas: atender quem quer sofisticar o cotidiano com peças acessíveis e atender quem investe alto em ocasiões memoráveis. Quem entender que os dois públicos coexistem — e que ambos compram experiência, não apenas produto — sai na frente.




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